A VIDA VEGETATIVA DA CAPOEIRA
Por: Carlos Senna
Não surgiu, não veio, não apareceu. Ela simplesmente brotou dos Quilombos, gerada no casamento da violência da raça branca dominadora com a necessidade físico-espiritual de defender-se da raça negra escravizada, Esta, naquele estágio humano-cultural de defender-se da raça negra escravizada, produziu o mestiço (maior visão e inteligência mais exercitada que o negro, com maior destreza que o branco) e na situação psico-fisica, produziu a CAPOEIRA, fecundada no leito da natureza em perfeito contato e assimilação das qualidades naturais de sobrevivência de quatro espécie de nossas matas: O macaco, a onça, a raposa e a aranha, nos quais se inspiram para criar o conjunto de movimento de defesa e ataque fornecedores conteúdos belicosos da luta revide de nossos escravos, a Capoeira - a Arte Marcial Brasileira.
A belicosidade da CAPOEIRA foi elaborada na ânsia de liberdade do negro escravo que, através do batuque – espécie de ritmo do continente africano - , fez desenvolver o seu condicionamento físico(destreza e equilíbrio), aceitando racionalmente os sentidos da irracional qualidade particular de auto-defesa do macaco, da onça, da raposa e da aranha. Esse conjunto de qualidade veio produzir na prática, o encontro harmônico que dá ao Capoeirista a agilidade do macaco, a combatividade e a sagacidade da onça, a manha e a astúcia da raposa e a capacidade envolvente e enlaçadora da aranha. Assim estimulado, o sentido altivo e guerreiro do negro escravizado motivou uma “filosofia” de vivência e sobrevivência através da “aviação psicossomática” das qualidades naturalmente sensíveis e particulares da espécies referidas, constituindo-se assim no conteúdo da formação “espiritual-filosófica” que, guiado pela síntese desses elementos, configura o gingado.
A CAPOEIRA, na sua prática luta, procura não exercer uma confrontação direta entre os adversários. Procura, em forma circular, criar espaços que conduzem à possibilidade de enlaçar, pela força “hipnótica centrifuga”, o companheiro e, sem que este perceba o que vai acontecer, como uma fórmula mágica, possa produzir um “espiral centrípeta” que atue no adversário de forma a atraí-lo, envolvendo-o num todo, para dele servi-se da maneira belicosa que julgue mais interessante. A CAPOEIRA não puxa, não provoca choque, ela é algo mais profundo: atrai a quem ela quis provocar.
A força do capoeirista veio da interiorização progressiva dos escravos, ditada pela necessidade de criar esquemas de defesa física, e da necessidade óbvia de alcançarem uma perfeita disciplina espiritual para suportar com paciência todas as dificuldades de resistência e sobrevivência a que estavam sujeitos, obrigados a resistir heroicamente aos perseguidores e algozes. Associada à Fé religiosa da magia, deu-lhes uma iluminação, força de que, nos momentos de total dificuldade, se valia, com o poder de suas orações, para se transformarem num pé-de-mato e desaparecerem das vistas daqueles que tentavam aprisioná-los.
A CAPOEIRA difere de qualquer outra Arte Marcial já conhecida. Além da música que acompanha a sua prática, estado de defesa pessoal o emprego do corpo humano é total: perna, pé, mão, joelho, calcanhar, braço, cotovelo, ombro, cabeça, dedos. A utilização desses órgão, numa repetição dinâmica e intensa, forma a chamada “memória muscular”, com a qual todo o corpo se torna um instrumento de morte. Fora das regras, no uso como defesa pessoal, é uma luta “suja” onde as mais diversas “espertezas” podem ser usadas.
A CAPOEIRA é: a arte de cautela e negaça, da malícia e da matreirice, que tem nos pés pontos básicos e nas mão o seus coadjuvantes. O seu princípio é dos líquidos, podendo ser gasoso, ou seja, a água e seu vapor que, num estado, ajeita-se e no outro é imperceptévl, dando jeito de passar por onde precisa, traiçoeiro com aqueles que querem ignorar o seu poder.
Bibliografia:
Boletim da ginga associação de capoeira, ano I n- 2 de 13 de novembro de 1994